Criador de DOOM mostra como software bem otimizado pode prolongar a vida do hardware

Published on: 2026-01-14
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John Carmack cutuca a indústria: software bem feito poderia fazer o hardware antigo durar bem mais

Os preços de PCs e consoles dispararam nos últimos anos, e dá pra sentir isso no bolso. Uma placa de vídeo topo de linha da NVIDIA chega a custar até três vezes mais do que antes da pandemia. E jogos da nova geração, como os da Switch 2, aparecem por até 90 dólares.

No meio desse cenário, John Carmack, lenda da programação e cocriador de DOOM, jogou uma ideia na mesa que parece simples, mas incomoda: boa parte dessa corrida por upgrades poderia ser evitada se a indústria levasse a sério a otimização de software. Ou, dito de um jeito mais direto, se o software fosse realmente bem feito, muito hardware que hoje chamam de “velho” ainda daria conta do recado.

E não é papo de nostalgia. A provocação tem base técnica: DOOM rodava em máquinas extremamente limitadas porque o código era escrito com obsessão por eficiência. Cada ciclo de CPU importava. Cada acesso à memória era pensado. Não havia espaço para desperdício porque o hardware simplesmente não permitia.

O experimento mental: e se o mundo parasse de fabricar CPUs?

A conversa ganhou forma a partir de um cenário fictício lançado por Laurie Voss, pesquisadora do Google, em uma postagem no X: e se, de um dia pro outro, a humanidade “esquecesse” como fabricar processadores?

Nesse “Dia Zero”, nada de novas gerações, nada de upgrade. A sociedade teria que sobreviver só com os chips já existentes. A pergunta era: como o mundo reagiria?

John Carmack entrou na brincadeira, conhecido também por trabalhos em Quake, pelo próprio DOOM e por tecnologias de VR na Meta. Só que ele puxou o debate para um ponto bem atual: do jeito que o software moderno é pesado, a gente sofre mais do que precisaria. Se fosse mais eficiente, muito do que usamos hoje rodaria até em chips antigos.

Quando a ineficiência vira o estopim de um colapso

No cenário imaginado por Laurie Voss, o primeiro impacto seria no dinheiro. Parando a produção, os preços de computadores, celulares e peças de reposição explodiriam. A reação natural seria tentar esticar ao máximo a vida útil do que já existe, com coisas como undervolting, sistemas de refrigeração mais sofisticados e todo tipo de cuidado para segurar o equipamento funcionando por mais tempo.

Com o passar dos anos, esse mundo ficaria ainda mais tenso: surgiria um mercado clandestino de CPUs, comparável ao tráfico de drogas. Processadores Xeon passariam a valer mais que ouro. Governos priorizariam chips remanescentes para áreas críticas como energia e defesa.

Aí a deterioração continuaria batendo à porta: smartphones começariam a falhar por fadiga nos pontos de solda. Carros antigos, sem eletrônica, virariam itens de luxo. E a internet, com o tempo, deixaria de funcionar para a maioria. Só os ultrarricos teriam acesso via satélite, enquanto o restante dependeria de uma rede paralela, trocando arquivos por SSDs.

Trinta anos depois, quase todo hardware baseado em nós avançados teria falhado. O que sobraria seriam máquinas com chips maiores e mais robustos, como antigos iMac G3, Game Boys, Commodores e Macs SE. A sociedade tecnológica cairia de volta para um patamar parecido com o das décadas de 1970 ou 1980.

O ponto do Carmack: isso não é só ficção, é um retrato do presente

É aí que John Carmack crava o argumento que ele considera essencial. Na visão dele, uma parte enorme das soluções digitais modernas continuaria funcionando em hardware considerado obsoleto se eficiência fosse tratada como prioridade de verdade.

“Se otimizar software fosse prioridade, o hardware antigo bastaria. E num mercado com escassez computacional, os preços se ajustariam naturalmente.” — John Carmack

O incômodo dessa frase é que ela aponta para algo bem reconhecível no dia a dia: muita coisa parece pesada “porque sim”, não porque precisa ser. O texto cita exemplos que cutucam esse nervo:

  • Windows 11 exige pelo menos 4 GB de RAM para rodar, quando poderia ser mais leve.
  • Jogos AAA custam caro e ainda assim mal seguram 30 fps com tudo no máximo e em altas resoluções.
  • Para chegar numa performance decente, muitas vezes dependem de truques de inteligência artificial, como DLSS e geração de quadros.

A crítica não é contra evolução tecnológica, nem contra novas demandas. Existe, sim, área em que hardware novo é essencial. O alvo aqui é o software do cotidiano que vai ficando inchado, acumulando camadas e dependências, e empurrando o custo para o usuário como se isso fosse “normal”.

O ciclo que se alimenta sozinho

Quando o software passa a depender de hardware cada vez mais poderoso para mascarar ineficiências, nasce um ciclo vicioso. Usuários trocam de máquina em períodos curtos porque “não aguenta mais”, e fabricantes ganham com essa obsolescência acelerada.

Para John Carmack, a saída é direta: softwares mais enxutos, mais bem otimizados, aproveitando melhor a capacidade dos chips que já estão no mercado. Isso, segundo a lógica dele, daria uma sobrevida real aos equipamentos atuais e aliviaria o bolso do consumidor.

O problema, como a própria matéria deixa no ar, é que ninguém parece realmente disposto a pagar o preço dessa mudança de mentalidade. Enquanto isso, os preços continuam subindo, e a sensação de que “tudo envelhece rápido demais” vai virando rotina. ✅

Conclusão: a fala de John Carmack resume um desconforto grande do mundo atual. Nem sempre falta poder de computador; muitas vezes falta cuidado no jeito de construir software. E quando a eficiência deixa de ser prioridade, a conta não fica só no laboratório de desenvolvimento: ela aparece no upgrade forçado, no gasto extra e no hábito de aceitar que lentidão e peso são o novo normal.