Meta Platforms acertou a aquisição da startup de inteligência artificial Manus, uma empresa sediada em Singapura e fundada por empreendedores chineses. Pessoas a par das negociações dizem que o valor do negócio passa de US$ 2 bilhões.
Segundo essas fontes, a Manus buscava uma nova rodada de investimentos e mirava uma avaliação de US$ 2 bilhões quando a Meta abordou a empresa.
Com a compra, o cofundador e CEO Xiao Hong, conhecido pelo apelido “Red”, deve se reportar ao COO da Meta, Javier Olivan, de acordo com pessoas familiarizadas com o acordo.
O movimento chama atenção por ser um dos primeiros casos em que uma grande empresa de tecnologia dos EUA compra uma startup com raízes chinesas, e também por colocar holofotes no ecossistema asiático de IA e startups, de onde saiu o produto.
O que a Manus faz e por que ganhou fama
A Manus ganhou muita visibilidade depois de apresentar, em março, uma prévia de um “agente de IA” capaz de produzir relatórios de pesquisa bem detalhados e até criar sites personalizados. Para isso, o serviço usa modelos de IA desenvolvidos por empresas como Anthropic e a chinesa Alibaba.
A demonstração veio na esteira do lançamento do modelo DeepSeek, descrito como “feito na China”, que sacudiu o Vale do Silício por suas capacidades avançadas e pela afirmação de que teria sido desenvolvido com bem menos poder computacional do que rivais americanos.
Por que a compra é estratégica para a Meta
O acordo sinaliza uma guinada importante dentro da Meta, que vem investindo pesado em IA para competir com Google, Microsoft e OpenAI. A compra também fortalece a empresa em um segmento que ficou especialmente concorrido: o de agentes de IA, ferramentas desenhadas para executar tarefas complexas com o mínimo de intervenção humana.
Hoje, por exemplo, a Microsoft já opera um assistente popular, o Copilot.
A Meta afirmou que pretende continuar operando e vendendo o serviço da Manus e que a ideia é integrá-lo ao conjunto de produtos de redes sociais da companhia. A empresa também é conhecida por defender modelos “open source”, que são, em grande parte, gratuitos para acesso, modificação ou distribuição.
“We plan to scale this service to many more businesses,” disse a Meta no anúncio do acordo.
Analistas apontam que as ofertas atuais de IA da Meta já estão amplamente disponíveis de graça em serviços como Instagram e WhatsApp. Além disso, a empresa teria incorporado IA de forma completa na publicidade, o que ajudou a turbinar os resultados financeiros.
O contexto: corrida por talentos e apostas anteriores
Depois de enfrentar desafios inesperados no começo do ano ao se preparar para lançar um novo modelo, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, entrou em modo “caça-talentos” 🤖. Ele teria feito uma ofensiva de recrutamento para montar um “time dos sonhos” de IA, oferecendo pacotes multimilionários a executivos e pesquisadores.
Antes da compra da Manus, a Meta também adquiriu uma participação de 49% na startup Scale AI, num acordo que avaliou a empresa em US$ 29 bilhões. O fundador da Scale AI, Alexandr Wang, passou a atuar na companhia como chief AI officer.
Crescimento da Manus: usuários, receita e rodada
A Manus acumulou milhões de usuários desde o lançamento na primavera, incluindo assinantes pagantes que usam os modelos para análise, programação e outras tarefas.
Em abril, a startup levantou US$ 75 milhões em uma rodada liderada pela venture capital Benchmark. Como parte do acordo, o sócio Chetan Puttagunta, da Benchmark, entrou no conselho da empresa.
Após esse investimento, a avaliação da Manus teria subido para US$ 500 milhões, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. A empresa também tinha como investidores relevantes HSG, ZhenFund e Tencent.
Já em dezembro, a startup anunciou ter ultrapassado US$ 100 milhões em receita recorrente anual, apenas oito meses depois do lançamento. Por volta desse período, ainda segundo fontes, a Meta começou a negociar a compra.
“Joining Meta allows us to build on a stronger, more sustainable foundation without changing how Manus works or how decisions are made,” disse Xiao Hong em um anúncio na segunda-feira.
Xiao Hong é um dos dois cofundadores chineses da empresa.
Raízes na China, base em Singapura e escrutínio político
A empresa controladora por trás da Manus, chamada Butterfly Effect, foi fundada em 2022 e tinha escritórios em Pequim e Wuhan. Em outubro de 2024, a companhia começou a desenvolver a Manus.
Embora a maior parte dos pesquisadores e engenheiros ficasse baseada na China, o serviço foi lançado fora do país porque utilizava muitos modelos americanos que não estão disponíveis no mercado chinês.
Depois de garantir investimento da Benchmark, a empresa transferiu oficialmente sua sede para Singapura. Parlamentares dos EUA criticaram a Benchmark por apoiar uma empresa de IA com ligações com a China.
Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, a Manus também deixou de lado o plano de criar uma versão voltada ao mercado chinês.
Atualmente, a Manus tem cerca de 100 funcionários, principalmente em Singapura.
Conclusão: com a compra da Manus por mais de US$ 2 bilhões, a Meta acelera a estratégia para disputar espaço no mercado de agentes de IA e, ao mesmo tempo, coloca no centro do seu portfólio um produto criado dentro do ecossistema asiático, mas estruturado para operar fora da China. O acordo também evidencia como a corrida por IA está misturando inovação, competição pesada entre gigantes e um nível crescente de atenção política sobre origens, investimentos e onde a tecnologia é desenvolvida.