O clima no mercado de tecnologia azedou depois que o bilionário de tecnologia Peter Thiel, um dos nomes mais influentes do Vale do Silício, decidiu zerar toda a sua posição em ações da Nvidia, bem no auge da euforia com inteligência artificial 🤖.
Documentos regulatórios mostram que o fundo de hedge de Thiel, o Thiel Macro, vendeu cerca de 537.742 ações da fabricante de chips durante o terceiro trimestre de 2025. Pelo preço de fechamento de 30 de setembro, esse pacote valia em torno de 100 milhões de dólares. A movimentação encolheu em cerca de dois terços o volume total de ações em carteira do fundo.
A Nvidia, que já dobrou de valor no ano e recentemente superou a marca de 5 trilhões de dólares em valor de mercado, virou praticamente o símbolo da revolução da IA, fornecendo chips para gigantes como a OpenAI e outras big techs que montam enormes data centers para treinar modelos avançados. Ainda assim, Thiel preferiu sair completamente do papel.
O momento da venda chamou atenção: ele acontece justamente quando analistas e investidores contam com a Nvidia como o grande termômetro da demanda por IA. O mercado estava (e segue) de olho no relatório de resultados do terceiro trimestre da companhia, visto como decisivo para acalmar — ou piorar — o medo de uma bolha no setor.
Para muitos analistas, o recado é claro: se até alguém tão central no ecossistema de IA resolve pular fora da principal ação do setor, é porque enxerga riscos grandes demais à frente. Thiel foi peça-chave na formação dessa onda, como cofundador da PayPal, criador da empresa de defesa em IA Palantir, primeiro investidor externo no Facebook e sócio do influente fundo de venture capital Founders Fund, que apoiou companhias como SpaceX e Airbnb. Ou seja, não é um “turista” em tecnologia.
O investidor já vinha alertando que o hype da IA estaria muito à frente da realidade econômica do setor. A forma como reorganizou o portfólio no terceiro trimestre reforça essa visão: em vez de apenas reduzir exposição, ele promoveu uma saída total de Nvidia, algo visto no mercado como mais do que um simples rebalanceamento — quase uma declaração de que a festa pode estar perto do fim 🧨.
No novo desenho da carteira, o Thiel Macro passou a ter como principais posições ações da Apple, Microsoft e uma fatia menor da Tesla. Segundo dados enviados à Securities and Exchange Commission (SEC), o valor em ações americanas de posição comprada do fundo despencou de 212 milhões de dólares no segundo trimestre para cerca de 74,4 milhões de dólares no terceiro.
O movimento de Thiel ganhou ainda mais peso porque veio logo após a japonesa SoftBank também se desfazer de sua participação em Nvidia. A sequência de vendas por grandes players alimentou o medo em Wall Street de que a febre que impulsionou as big techs de IA pode ter atingido o topo, colocando sob risco os trilhões de dólares já comprometidos com projetos de inteligência artificial.
Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que a demanda “explosiva” por IA pode estar chegando a um limite, ou que a valorização das empresas de tecnologia ficou distante de qualquer fundamento sustentável. Investidores, então, se agarram aos próximos números da Nvidia como uma espécie de veredito: se vierem fortes, dão um fôlego extra ao rali; se decepcionarem, podem acelerar uma correção mais dura.
Esse cenário se soma a outro fator que vem tirando o sono do mercado: a forma como o setor está sendo financiado. Empresas como Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle já emitiram cerca de 100 bilhões de dólares em títulos de dívida neste ano, a maior parte desde setembro, para bancar data centers e projetos de IA, enquanto startups como a própria OpenAI também começam a recorrer fortemente a endividamento.
O problema é que, enquanto os custos disparam, a receita da maioria dos projetos de IA ainda não acompanha o mesmo ritmo. Muitos modelos não são tão úteis quanto se esperava e sua evolução tem sido mais lenta, o que limita o potencial de retorno. Com isso, a indústria se afasta da lucratividade, mesmo em cenários em que essas ferramentas dominem segmentos como buscas ou entretenimento adulto.
Esse descompasso já aparece em outros papéis de tecnologia. As ações da Meta, por exemplo, caíram cerca de 25% desde agosto, muito por causa do temor de que seu programa de IA não consiga gerar caixa suficiente para pagar quase 30 bilhões de dólares em dívidas ligadas a esses investimentos. A Microsoft recuou cerca de 9% em pouco mais de um mês, num reflexo semelhante.
Com a desconfiança em alta, levantar dinheiro via emissão de ações ficou mais difícil tanto para gigantes consolidadas quanto para startups como a OpenAI, que dependem dessas parcerias. Resultado: a indústria corre para a dívida, mas isso também tem limites.
Um sinal bem claro veio do mercado de seguros de crédito. O volume de seguros atrelados a títulos de dívida ligados à IA subiu de menos de 25 bilhões de dólares antes de setembro para bem acima de 100 bilhões. Esse salto indica que investidores privados e institucionais já esperam um aumento do risco de calote nesses papéis — e, à medida que a demanda por esse tipo de proteção cresce, o custo sobe, tornando ainda mais caro se endividar.
Nesse contexto, a própria expansão da Nvidia fica sob dúvida. O plano otimista de vender mais de um trilhão de dólares em chips para empresas de IA depende justamente de clientes que talvez não consigam mais financiamento suficiente para sustentar compras nesse nível. Em linguagem de investidor, isso soa como um sinal de que um ajuste de valor — possivelmente forte — pode estar no caminho.
Além do futuro, o presente da Nvidia também é observado com lupa. Projeções de mercado apontam que o lucro do terceiro trimestre deve ficar cerca de 56% acima do mesmo período de 2024. Mas negócios considerados “estranhos”, como acordos de financiamento circulares com a OpenAI, levantaram dúvidas sobre a consistência desses resultados. Na véspera da venda de Thiel, o mercado de opções já indicava que os investidores esperavam um movimento de aproximadamente 7% para cima ou para baixo nas ações da Nvidia, dependendo do balanço.
Para quem acompanha de perto praticamente todos os grandes projetos de IA, como Thiel, esse conjunto de sinais pode ter sido suficiente para apertar o botão de saída antecipada. Ele teria acesso a uma visão privilegiada de como estão as finanças de parceiros estratégicos e de como as portas de equity e dívida estão se fechando para o setor — o que reforça a tese de que a decisão de vender agora foi uma forma de se proteger de uma possível virada brusca no humor do mercado.
Ao mesmo tempo, o peso das ações de IA na economia americana deixou tudo ainda mais sensível. Em 2025, papéis de tecnologia ligados à inteligência artificial responderam por mais de 75% dos ganhos do índice S&P 500, concentrando o crescimento em poucos nomes e aumentando a fragilidade do mercado. Em agosto, essa vulnerabilidade ficou evidente: mesmo com o índice em alta no mês, as grandes gigantes de tecnologia mostraram uma volatilidade incomum, alimentada por dúvidas sobre dívidas, economia global e o próprio ritmo da IA.
Para quem acredita que existe uma bolha de IA pronta para estourar, esse tipo de oscilação é um alerta. Não por acaso, quando o S&P 500 caiu abaixo da sua média móvel de 50 dias em 17 de novembro — algo que não acontecia havia 138 dias —, a maior parte das perdas veio justamente das empresas de IA de grande porte.
A leitura que ganha força é a de que a indústria de IA precisa de centenas de bilhões de dólares por ano apenas para continuar operando no ritmo atual, sem garantia de retorno proporcional. Com investidores cada vez mais receosos de colocar mais dinheiro em ações e com o crédito ficando caro e escasso, o mecanismo que pode “estourar” essa bolha estaria em plena formação.
No meio disso tudo, o movimento de Peter Thiel de abandonar completamente a Nvidia virou um símbolo desse momento de virada: um dos arquitetos da era da inteligência artificial optando por sair da principal aposta do setor, justamente quando o otimismo parece no limite. Para muitos no mercado, é o tipo de gesto que não dá para ignorar.